Aos que acham que pregam bem

pregar bem

Antes que você reaja e aplique em mim o que talvez vou dizer a você, saiba que eu acho que não prego bem. Tenho certeza, e isto já me foi dito, que há pessoas que preferem ouvir outros pregadores. Meu jeito de pregar e meu conteúdo não os tocou. Não sou seu pregador preferido. Se puderem mudar de canal de rádio ou de TV é isto que farão.

Para alguns judeus do seu tempo, Jesus também não agradou. E ele entendeu. Até deixou seus discípulos livres para procurar outro discurso e outro pregador (Jo 6,64-69). Não é possível agradar a todos. Jesus não agradou. E isto pode servir de consolo para qualquer pregador católico, evangélico ou pentecostal. Poucos pregadores são brilhantes no que dizem e no modo como se expressam.

Leia também:
Pessoa sólida e solidária
Religião que não progride

E isto explica porque alguns pregadores atraem multidões com um discurso feijão com arroz e ovo frito, enquanto outros pregadores cultos, rebuscados e dono de enorme bagagem teológica e filosófica pregam para bancos vazios.

Por que razão o povo prefere o pregador que mal consegue ler um livro por ano, e todo mundo já sabe o que ele vai dizer se aproxima daquele microfone? O que ele tem de especial se não é o seu discurso, nem sua cultura, nem seu charme que atrai o povo? O que ele tem que os outros pregadores não têm.

Em tempos charmosos, com câmeras, microfones e novidades diárias ou semanais, contam o porte, a beleza física, um bom marketing, a presença constante na mídia, uma boa equipe e um bom suporte.

O centro das atenções deve ser ele. Até agora nenhuma mulher chegou a este pódio. Mas vários homens cinquentões e quarentões, de fala mansa ou tonitruante, donos de um péssimo português, dicção sofrível, alguns até meio gagos, postura errada ao falar e caminhar, roupa cuidadosamente escolhidas, este ou aquele de chapéu de colono ou vaqueiro, eu dizia, vários homens de Igreja chegaram ao pódio. Estão entre os dez pregadores mais ouvidos ou vistos pela mídia religiosa do Brasil.

O que pregam parece que não conta muito. Não é exatamente o que encantou os fiéis que os seguem diária ou semanalmente. Penso que chegarei mais perto da resposta se disser que transmitem aquele algo mais que os fiéis gostariam de ver ou ouvir em um templo ou diante de uma câmera.

Se você já assistiu a um clássico de Shakespeare, e viu ‘Romeu e Julieta’ apresentados por dois pares de atores, certamente escolheu um Romeu ou uma Julieta que mais o comoveu. E o fez pela beleza, ou pela voz, ou pelos trajes ou pela dramaticidade. O certo é que a escolha foi sua. Representaram o que estava no seu ideário de um par romântico.

O mesmo acontece com os pregadores. Conta a dramaticidade, a figura simpática admirada, os gritos ou os sussurros, os gestos largos ou serenos, o tapa na mesa, a fala mansa ou jeito brucutu do pregador, as bravatas, os anúncio de milagres e curas, os desafios ao demônio, as lágrimas ou o tom choroso, o jeito engraçado e a beleza. Quem decide é o povo. A teologia e a filosofia é o que menos conta para o ouvinte.

Portanto, se você cair nas graças do público que leu, ouviu ou viu você, tente ser humilde e pense que talvez não foi por sua sabedoria ou por seu charme que pela luz que você emana que o povo o escolheu. Isso de preferências do povo não é fácil de prever ou destrinchar.

Quando meus amigos ou admiradores me elogiam, agradeço, mas apresso-me a dizer que é generosidade e bondade deles. Escolheram gostar de mim por razões que eu não sei explicar. O porquê da sua preferência, só eles sabem. Há padres mais cultos, mais serenos, mais sensatos, mais simpáticos e mais brilhantes do que eu, mas gostam de mim. Dá-se o mesmo com outros sacerdotes.

Tenho dito aos meus amigos e colegas de convento e de congregação que o povo nem sempre os melhores, mas aqueles com quem mais simpatizam. É coisa do povo e não nossa. Da nossa parte, devemos tentar corresponder às escolhas do povo. Como não se trata de competição eclesiástica ou corrida pelos primeiros lugares, aceitemos o bem querer do povo. Mas é claro que podemos melhorar nossos discursos, nossa cultura e nossas leituras. Com o tempo o povo torna-se mais exigente. Os bancos vazios talvez falem mais do que o discurso do povo. Alguém parou de vir por alguma razão. E uma delas pode ser a nossa pregação. Às vezes, a mesmice cansa!

Faça um comentário